quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Prólogo


tentei dormir mas algo me
algo me torce, algo me
algo me eleva, algo me larga,
algo me alaga de vida no sufoco
ultra espaçoso da agorafobia cotidiana
tentei dormir mas há farpas na cama

deitar me na cama me fez o que sou


Prólogo,

ou os quatro, quase cinco, exercícios para tentar dormir


deitar me na cama me fez o que sou; lembro-me bem, que no dia que dormir tornou-se viver, sentei me à cama, retirei meus sapatos e como quem tivesse passado o dia a trabalhar, apesar do meu ócio convicto e habitual, deitei-me na esperança tola de dormir. não, eu não trabalhava, nem mesmo me ocupava com qualquer coisa que pudesse se chamar de fatigante. todo o meu cansaço, bem como quase toda a minha vida, era um fingimento bobo, um mimetismo animal incompreensível, como que uma vontade de parecer com os meus semelhantes, para não dar a vista dos predadores.

demorei tempo demais para conseguir fechar os olhos. então, comecei minha rotina de exercícios para tentar dormir. o primeiro era simples, olhei para o teto e enumerei os móveis de meu quarto: uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. o segundo era folclórico, contei carneirinhos, cabritinhos, poodles e outros animais irritantes. o terceiro, deprimente, masturbei-me pensando em todo o tipo de fantasia sexual(fantasias que nunca tive vontade real de cumprir). o quarto pretendia-se culto, reli livros clássicos. o último, bem, o último... o último era inédito. o último é tudo que tenho que dizer, o último é prolixo, o último é o próximo. o último...



a Janela


deitei-me em minha cama, mas não consegui dormir. deitar me na cama me fez o que sou. olhei em volta de meu quarto, e enumerei os móveis de meu quarto, uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. a Janela de meu quarto não dá para o mundo, como o nome “janela” poderia sugerir, mas para a parede do prédio vizinho, numa proximidade tal que faz parecer que a Janela foi diretamente esculpida da parede desse prédio, com o único e inescusável intuito de fingir dar(para depois negar) as liberdades que só uma janela nos pode dar. enquanto janelas costumam ser não-paredes, a Janela de meu quarto era uma parede não-janela. minhas noites em claro podem se confundir com a Janela. quantas noites sem sono se devem à minha contemplação estática daquela Janela? e afinal, permanecer imóvel diante de uma janela, não pensando em nada mais importante do que em como meus dias tinham sido supostamente vazios, não é dormir? apenas dormimos quando estamos de olhos fechados, ou será que estar imóvel, inútil e sonhando, não pode ser chamado de dormir? estão de todo errado aqueles que consideram dormir um momento ébrio em que nos permitimos parar de pensar? mas se assim for porque nossa sanidade depende tanto de nossas noites de sono? ser são é ser capaz de não pensar?

lembro que, quando criança, aprendi a falar, a andar, a usar talheres, observando aqueles que já o soubesse. e a viver sentado por intermináveis hora em frente a uma janela, como teria aprendido, da mesma forma? só o que me ensinaram é que o importante não estava na janela, objeto esse que servia apenas para circundar o mundo que deveríamos ver, como um óculos, ou uma regra que de tão impregnada em nossas cabeças, estaria além da observação, seria um prisma colado em nossas pálpebras com artesanal perfeição que sua existência se confundiria com a dos nossos próprios olhos ou como uma janela, um buraco cujas formas ou silhuetas deveriam ser esquecidos em detrimento da observação do interior de suas bordas ou seja do exterior do mundo. para a visão importa apenas o observador e o observado, sendo toda a trajetória que a luz percorre para alcançar nossos olhos (trajetória essa que se bem entendida pode salvar nos de toda espécie de ilusão ou miragem, prevenindo-nos de qualquer tropeço ocasional ou de quaisquer estafantes voltas em círculo) ignorada como devem ser ignorada a busca frente a chegada da meta. a meta é capital, o objetivo é capital, a principal cena da maratona é o corte da fita na chegada e não a largada ou os quarenta e dois quilômetros de percurso. nossa chegada é a morte, nosso momento final. em nossa vida e sociedade, essa será nossa grande paixão, a quem dedicaremos mais tempo de pensamento e dedicação. somos idólatras da morte, quer na busca de cruzes e mártires, quer na busca por saúde e juventude, pois a morte é o que encontramos limitado pelas bordas de nossa janela.

e quando o interior de uma janela não é o exterior do mundo? o que fazer de minha janela, cuja parede contida, perfeitamente lisa e branca, impecavelmente uniforme, por impropriedade absoluta de substância não deveria ser observada? e o que fazer dessa máxima, pela qual apenas o conteúdo, e jamais o continente, deve ser observado? como observar o inobservável ou como reprisar toda uma maratona sem mostrar os momentos finais do vitorioso? ou, talvez, como convencer um maratonista a correr numa pista sem linha de chegada? adoramos a morte por medo de vivermos eternamente, como o maratonista que teme nunca parar de correr uma corrida sem chegada?

mas, tais perguntas não adentravam a cabeça do meu eu-criança. o instinto de aprendizado mímico, tão enraizado em nossa natureza, não me permitia deixar de copiar papagaiamente as atitudes dos adultos. meu avô olhava o mar, com saudades da época que tinha pernas para nadar, minha avó olhava as mulheres que desfilavam pelas ruas, com saudades da época que tinha beleza. eu olhava as formigas que caminhavam ordeira e ordenadamente pela parede do vizinho. a repensar sobre a minha infância na Janela não-janela, diria que eu buscava naquelas formigas, um propósito. eu ainda devia estar procurando. será que ainda existem formigas naquela parede? sim, elas ainda estão lá. cadê meu propósito? que pergunta estúpida! meu avô não achou pernas, nem minha avó beleza, já deveria ter aprendido, que no interior das janelas, ficam metas, não realizações.

olhar para uma janela sem ver seu interior. era essa minha sina. seria demais para uma criança exigir que mantivesse qualquer vínculo com a lógica ao dizer-lhe que observe apenas o que a Janela contenha, sendo que o elemento contido, uma parede, é igualmente inobservável. no choque de duas realidades incontestáveis, de duas obviedades ruidosamente claras, a ponto de a confundirmos com nossos próprios olhos, o que ainda conseguimos ver?

e se comer desse fome? e se respirar matasse? apesar de toda ilógica aparente, por apressar os trabalhos de nosso corpo em digerir, de fato comer dá fome... e nossa inalação supre de oxigênio todos nossos cânceres e tubérculos e portanto mata-nos, o que ainda podemos fazer para matar a fome ou para permanecermos vivos? da mesma forma que continuamos a comer ou respirar, apesar da, aqui, comprovada ausência de lógica em tais fatos, eu quando criança passei a observar a parede- por- trás- da- Janela. contraditoriamente, os mesmo que me impuseram tal dilema, os adultos que moravam em minha casa, muito estranharam que eu permanecesse horas a observar as formigas que passavam pela tal parede do outro prédio, na paródia sombria do que essa gente costumava fazer ao olhar para janelas-que-dão-para-as-ruas. se de fato meditava ou contemplava o nada não me lembro, mas a necessidade de uma lógica estável que nos dê firmeza nos pés me encarcerava por horas de fronte a tal Janela toda vez que não entendia muito bem as lógicas do mundo em minha volta.

quando finalmente crescido, justamente nos momentos que mais precisaria de estabilidade sobre os pés, a Janela já não me supria de tal urgência. junto com o carro que recebi de aniversário aos 18, ganhei um Motor que não para de rodar dentro de mim e que em seu incessante mover apressa-me por dentro evitando que, por mais forte que eu tente, passe mais que alguns segundos em frente à parede. apressa-me para velocidades, velocidades nas quais não consigo enxergar por onde estou, num desejo eterno por montanhas- russas que impeçam que veja com nitidez o contorno do cenário por onde ando, talvez porque sem ver os contornos seja incapaz de reparar por onde passo e assim, sorvendo o mínimo de imagens a minha volta eu tenha igualmente o mínimo do que afligir-me naqueles intermináveis instantes entre deitar e dormir. esse redemoinho de quedas e vertigens, histórias de sucessos e fracassos, é minha nova-janela, mas não estática em demasiado como a Janela, essa nova- janela, esse Motor, é como um filme de ação no qual de tanto se mexer o ator, entre aviões, carros e bandidos que nos faz esquecer por que tanto se corre em tal filme. mas nem o fracasso com a primeira janela, a Janela, me alertou sobre meus riscos nessa nova forma de estática, essa estática em movimento, e me tornei escravo desse Motor-Perpétuo como antes fora das minhas inspeções à parede.

deitar-me na cama me fez o que sou; agora, eu tinha um Motor, um movimento. ainda não achara porquês, mas em meu caminho esbarraria com um, eventualmente. cabe pensar que não coincidentemente foi por essa época que me ocorreu a primeira insônia que me recordo inteiramente. não que antes não tivesse problemas para dormir, mas como os enevoados pensamentos de criança que misturam a realidade vivida e as histórias contadas, as minhas insônias anteriores não tem a fé necessária para eu considerá-las verdade. voltara de minha primeira viagem motorizada, uma viagem extremamente cansativa, uma espécie de corrida epícura à lugar algum. entre ninfas e sátiros, numa sombria e silenciosa marcha sem endorfina, sem êxtase, sem chegadas e sem vitórias. quando girei a chave da ignição, o motor do carro no qual viajara não tardou um momento em parar, mas quando cai sobre minha cama, esse Motor-de-Dentro esqueceu de desligar-se. apesar de já terminado o ginásio, não entendia a inércia que fazia meu corpo tender ao movimento mesmo que para os olhares mais desavisados estivesse perfeitamente imóvel sobre minha colcha. como o movimento externo tem uma inércia que mantém os corpos em movimento, e que apenas o atrito, a resistência do ar ou outra força rompe, o que dizer desses movimentos que se passam dentro de um corpo? haveria dentro de mim algo para esse Motor se atritar com? que outra força usaria eu para parar e conseguir dormir? como faria para encher-me de ar? na época, eu sabia... ou melhor, eu ainda sei como parar o Motor da época. Como todas as outras coisas que me compõem, o Motor evolui, a meu contragosto. ele aprende com minhas vitórias e com minhas derrotas, de forma que nem minha consciência é capaz de aprender, Ele odeia ser parado e trata todas minhas noites de sono como um fracasso. naquele tempo já remoto, me bastava algumas corridas com os olhos envolta do quarto ou aquela atenção hercúlea indispensável para assistir televisão por mais de dois pensamentos ou a presença rara mas enaltecida de outro corpo repousado sobre a cama, todos esses fatores pouco importantes e distantes da substância de minha insônia mas que mesmo assim faziam com que meu sono viesse facilmente, num apelo desesperado de meu corpo por descanso. hoje meu fardo é deveras maior, esse Motor já conhece todos os meus truques, e minha Insônia já extravasa em muito minha inércia. já não consigo dormir até mesmo por estar parado demais... nesse eterno jogo entre eu e a Insônia pela maciez de minha cama, Ela é a dama e a mestra e restou-me criar vãos exercícios para enganá-la.

o Armário(1ª parte)

deitar-me na cama me fez o que sou, diametralmente oposto à minha Janela, está estacionado um armário de compensado, bastante velho e surrado. o seu interior se confunde com sua imagem, dentro vê-se roupas novas e limpas, que parecem ser o conteúdo do Armário. no Armário, contudo e por mais que pareça o contrário, não há camisas, calças, meias ou sapatos, Ele guarda apenas passados. tempos em que ainda comprava roupas, tempos em que ainda me importava em ter e guardar coisas. tempos em que os dias sucediam outros dias, tempos em que ainda contava o tempo, tempos em que ainda existia tempo. quando não se dorme, não se acorda; é como se não houvesse pôr-do-sol ou alvorecer, é como se não houvesse tempo em si. todo vez que abro meu Armário, tiro uma roupa qualquer com o rosto virado para a parede, sem nunca olhar diretamente para Ele. o passado não nos atinge se não pensarmos nele, era meu lema. tinha uma relação feliz com meu passado: eu não mexia nele e ele não mexia comigo. dizem por aí, que as piores feras apenas nos atacam quando se sentem acuadas ou quando invadimos seu espaço, isso porque não existe um predador do homem, diz-se que já fazemos isso conosco mesmo. eu me caço? não saberia dizer. mas, posso garantir-me que meu passado é uma besta-fera devoradora, a enfastiar-se de minha tranqüilidade, um catalisador das entropias do presente, um ampliador da potência de meus medos e angústias. todo dia embaraços, fracassos e temores ocorrem e a cada dia tenho mais passado, cada dia a fera é mais forte e tenho que mantê-la sempre isolada. olhar o passado é cada vez mais perigoso, mesmo que ainda possa ser considerado um homem novo. felizmente, meu velho Armário é uma jaula resistente e forte, felizmente é grande o bastante para bastante passado caber. se calhar de envelhecer, com sorte Ele bastará. deixo aqui meu desejo que Ele seja enterrado. após minha morte, mas longe de mim.

deitar-me na cama me fez o que sou; quando comecei minha rotineira tentativa de dormir, notei que um estranho defeito se abateu sobre as portas de meu Armário. as portas de meu Armário estavam escancaradas. não era como se tivesse esquecido elas abertas. mesmo que cometesse tamanha temeridade, nunca conseguiria abrir as portas de tal maneira... não estavam abertas as portas, as dobradiças e que estavam para ao avesso. lembrou-me de minha primeira noite insone, quando ainda era apenas um garotinho. essa vigília foi motivada por um medo assombroso, um terror escondidos nos cantos de cada felicidade, o pavor dos pavores, fonte de todo o temor de todas as pessoas. era fim de ano e toda minha família estava em casa, inclusos tios e primos distantes. estes, tiraram-me de minha Janela e minha rotineira televisão-de-tamanduá, e empanturraram me de brincadeiras e convívio familiar. à noite, apesar de exausto, aceitei participar de uma roda de histórias de horror.

deitar-me na cama me fez o que sou. montamos uma pequena cabana de lençol, levamos lanternas, excitação e uma falsa criatividade de criança. meu primo mais velho começou.

após um casamento, noivos acordavam algemados um no outro.

meus primos recriaram versões fantasiosas de telejornais e paródias mal-escritas de filmes americanos, falavam de assassinatos, canibalismo, perversões e moto-serras. todas as histórias começavam com casamentos, festas de noivado, passeio escolares, viagem de férias, e terminavam com funerais ou enterros profanos. eles entendiam bem o clima da brincadeira, eram divertidos e se divertiam juntos, como se com suas histórias pudessem adiar o fim do dia de festas. porém, não estava apenas entre primos. meu tio permanecera conosco ao longo de todo o dia. chamavam-no, com ar de deboche, de tio peter pan, por jamais querer envelhecer. ele refutava e dizia que se aproximava das crianças para absorver um pouco de sua sabedoria e experiência. após observar todas as histórias de meus primos, meu tio contou sua história, criada ali de improviso, no mesmo momento.

deitar-me na cama me fez o que sou; deitado nos colchonetes na sala, junto com um punhado de primos, ouvi o conto mais aterrorizante que existia. o de meu tio, ao contrário dos anteriores, não começava com momentos felizes, mas com um dia normal. chegávamos em casa, muito cansados e com fome. estávamos tão exaustos que não fazíamos a janta, íamos direto para cama. adormecíamos com fome, na crença que acordaríamos e faríamos um lanchinho de madrugada. no entanto, acordávamos no dia seguinte, mortos de fome. não estávamos mais em nossas camas, mas sentados numa cadeira de jantar, em nossa frente, pairava uma grande mesa. era uma mesa alta, na altura de nossos peitos e em suas beiradas ficavam pratos e talheres. no centro dela, todas as sortes de delícias e guloseimas esperavam por nós. um grande pernil, estrogonofe, peru recheado, várias sortes de arroz, todos os tipos de carne. um pouco à frente, havia uma seção de doces, sorvetes e bolos, de todos os sabores e receitas. a fome, e o assombro da visão maravilhosa da mesa, nos fazia salivar litros de desejo e gula. era espantosamente perfeito e estava ao alcance de nossos braços. uma voz se repetia a dizer: “comam a vontade, comam tudo que quiserem”. contudo, ao tentar esticarmos nossos braços em direção a esse banquete monárquico, notávamos que nossos cotovelos estavam ao avesso e nossos braços virados para trás. não conseguíamos alcançar a comida, debruçávamos-nos sobre a mesa, mas, no melhor dos casos, tocávamos as tigelas com nossas cabeças sem conseguir trazê-las par perto. um de nós tentara morder as bordas de um dos pratos e puxá-la para o alcance de nossos indestros braços, mas somente conseguira queimar seus lábios. o Terror-Pai, que tentamos procriar em todas as histórias aterrorizantes que criamos, era, segundo meu tio, nos vermos próximos da felicidade e nunca conseguir alcançá-la.