quarta-feira, 26 de setembro de 2007

o Armário(1ª parte)

deitar-me na cama me fez o que sou, diametralmente oposto à minha Janela, está estacionado um armário de compensado, bastante velho e surrado. o seu interior se confunde com sua imagem, dentro vê-se roupas novas e limpas, que parecem ser o conteúdo do Armário. no Armário, contudo e por mais que pareça o contrário, não há camisas, calças, meias ou sapatos, Ele guarda apenas passados. tempos em que ainda comprava roupas, tempos em que ainda me importava em ter e guardar coisas. tempos em que os dias sucediam outros dias, tempos em que ainda contava o tempo, tempos em que ainda existia tempo. quando não se dorme, não se acorda; é como se não houvesse pôr-do-sol ou alvorecer, é como se não houvesse tempo em si. todo vez que abro meu Armário, tiro uma roupa qualquer com o rosto virado para a parede, sem nunca olhar diretamente para Ele. o passado não nos atinge se não pensarmos nele, era meu lema. tinha uma relação feliz com meu passado: eu não mexia nele e ele não mexia comigo. dizem por aí, que as piores feras apenas nos atacam quando se sentem acuadas ou quando invadimos seu espaço, isso porque não existe um predador do homem, diz-se que já fazemos isso conosco mesmo. eu me caço? não saberia dizer. mas, posso garantir-me que meu passado é uma besta-fera devoradora, a enfastiar-se de minha tranqüilidade, um catalisador das entropias do presente, um ampliador da potência de meus medos e angústias. todo dia embaraços, fracassos e temores ocorrem e a cada dia tenho mais passado, cada dia a fera é mais forte e tenho que mantê-la sempre isolada. olhar o passado é cada vez mais perigoso, mesmo que ainda possa ser considerado um homem novo. felizmente, meu velho Armário é uma jaula resistente e forte, felizmente é grande o bastante para bastante passado caber. se calhar de envelhecer, com sorte Ele bastará. deixo aqui meu desejo que Ele seja enterrado. após minha morte, mas longe de mim.

deitar-me na cama me fez o que sou; quando comecei minha rotineira tentativa de dormir, notei que um estranho defeito se abateu sobre as portas de meu Armário. as portas de meu Armário estavam escancaradas. não era como se tivesse esquecido elas abertas. mesmo que cometesse tamanha temeridade, nunca conseguiria abrir as portas de tal maneira... não estavam abertas as portas, as dobradiças e que estavam para ao avesso. lembrou-me de minha primeira noite insone, quando ainda era apenas um garotinho. essa vigília foi motivada por um medo assombroso, um terror escondidos nos cantos de cada felicidade, o pavor dos pavores, fonte de todo o temor de todas as pessoas. era fim de ano e toda minha família estava em casa, inclusos tios e primos distantes. estes, tiraram-me de minha Janela e minha rotineira televisão-de-tamanduá, e empanturraram me de brincadeiras e convívio familiar. à noite, apesar de exausto, aceitei participar de uma roda de histórias de horror.

deitar-me na cama me fez o que sou. montamos uma pequena cabana de lençol, levamos lanternas, excitação e uma falsa criatividade de criança. meu primo mais velho começou.

após um casamento, noivos acordavam algemados um no outro.

meus primos recriaram versões fantasiosas de telejornais e paródias mal-escritas de filmes americanos, falavam de assassinatos, canibalismo, perversões e moto-serras. todas as histórias começavam com casamentos, festas de noivado, passeio escolares, viagem de férias, e terminavam com funerais ou enterros profanos. eles entendiam bem o clima da brincadeira, eram divertidos e se divertiam juntos, como se com suas histórias pudessem adiar o fim do dia de festas. porém, não estava apenas entre primos. meu tio permanecera conosco ao longo de todo o dia. chamavam-no, com ar de deboche, de tio peter pan, por jamais querer envelhecer. ele refutava e dizia que se aproximava das crianças para absorver um pouco de sua sabedoria e experiência. após observar todas as histórias de meus primos, meu tio contou sua história, criada ali de improviso, no mesmo momento.

deitar-me na cama me fez o que sou; deitado nos colchonetes na sala, junto com um punhado de primos, ouvi o conto mais aterrorizante que existia. o de meu tio, ao contrário dos anteriores, não começava com momentos felizes, mas com um dia normal. chegávamos em casa, muito cansados e com fome. estávamos tão exaustos que não fazíamos a janta, íamos direto para cama. adormecíamos com fome, na crença que acordaríamos e faríamos um lanchinho de madrugada. no entanto, acordávamos no dia seguinte, mortos de fome. não estávamos mais em nossas camas, mas sentados numa cadeira de jantar, em nossa frente, pairava uma grande mesa. era uma mesa alta, na altura de nossos peitos e em suas beiradas ficavam pratos e talheres. no centro dela, todas as sortes de delícias e guloseimas esperavam por nós. um grande pernil, estrogonofe, peru recheado, várias sortes de arroz, todos os tipos de carne. um pouco à frente, havia uma seção de doces, sorvetes e bolos, de todos os sabores e receitas. a fome, e o assombro da visão maravilhosa da mesa, nos fazia salivar litros de desejo e gula. era espantosamente perfeito e estava ao alcance de nossos braços. uma voz se repetia a dizer: “comam a vontade, comam tudo que quiserem”. contudo, ao tentar esticarmos nossos braços em direção a esse banquete monárquico, notávamos que nossos cotovelos estavam ao avesso e nossos braços virados para trás. não conseguíamos alcançar a comida, debruçávamos-nos sobre a mesa, mas, no melhor dos casos, tocávamos as tigelas com nossas cabeças sem conseguir trazê-las par perto. um de nós tentara morder as bordas de um dos pratos e puxá-la para o alcance de nossos indestros braços, mas somente conseguira queimar seus lábios. o Terror-Pai, que tentamos procriar em todas as histórias aterrorizantes que criamos, era, segundo meu tio, nos vermos próximos da felicidade e nunca conseguir alcançá-la.

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